A ODISSÉIA ALVINEGRA NA PONTA DOS DEDOS: DEZ ANOS DE FUTEBOL DE MESA DO BOTAFOGO
Dez anos. Uma década. Tempo suficiente para um projeto germinar e criar raízes profundas, enfrentar tempestades e, por fim, ressurgir das cinzas em um outro local. Essa é a saga do futebol de mesa do Botafogo, uma epopéia de 10 anos de paixão, resiliência e teimosia inabalável de quem se recusa a deixar uma estrela apagar.
Para Marcos Moysés, uma figura central nesta história, essa jornada começou como uma aposta e uma paixão, e produziu uma década intensa, tecida por gols, títulos, mas acima de tudo, por pessoas e momentos que, juntos, esculpiram a alma do futebol de mesa alvinegro. Tudo começou modestamente. A idéia, que teve um pontapé inicial com Rogerinho, principal articulador no início do projeto, e que contava com a administração competente de Marcos Moysés, começava a tomar forma. Em janeiro de 2016, não sob os holofotes de um grande estádio, mas no acanhado Clube Ginástico Desportivo, no Rio Comprido. Naquele período, o Nilton Santos estava sob a égide do Comitê Olímpico Brasileiro, e o Glorioso precisava de um teto provisório para seus primeiros toques. Assim, ali no Rio Comprido, então, nasceu o primeiro espaço do Botafogo, numa sala pequena, inicialmente focado nas regras de 12 Toques e 1 Toque.
A virada para 2017 trouxe o primeiro grande passo. Negociações incansáveis, idas e vindas à portaria do Engenhão, conversas intermináveis – até que Anderson Simões, então VP de Estádios do Botafogo F. R., deu um voto de confiança decisivo e abriu as portas do clube. Literalmente. O Futebol de Mesa ganhava uma sala no Engenhão.
O espaço cedido, contudo, era um desafio: um sala entulhada, crua, necessitando de muitas reformas. Entretanto, a paixão era maior que qualquer obstáculo. Em 1º de abril de 2017, o CT do Botafogo ganhava um novo inquilino, que reformou toda a sala.
Com o tempo, o projeto ganhou corpo e almas: em 2017, o talento e a visão de Adriano Moutinho se juntaram à equipe, agregando uma força nova e crucial ao projeto, que transformaria o time, com a chegada do Dadinho ao Botafogo.
Mas nem tudo foram flores. O próprio ano de 2017, por exemplo, foi um ano de dupla provação, pois enquanto a modalidade lutava para consolidar sua presença no estádio, Rogerinho e Marcos Moysés enfrentavam graves problemas particulares, de saúde e perdas familiares, que os afastaram do dia-a-dia, cada um por um tempo e se apoiando mutuamente.
Mais tarde, com a nova gestão do Botafogo assumindo, liderada por Durcesio Mello na presidência e Daniel Jr. como VP de Esportes, Marcos Moysés teve a honra de ser nomeado oficialmente Diretor de Futebol de Mesa e Conselheiro do Clube. Não tardou para que, no final daquele mesmo ano, a confiança da diretoria resultasse na duplicação do espaço, produzindo-se um verdadeiro Centro de Treinamento (CT) para o crescimento alvinegro na modalidade.
Os anos de 2018 e 2019 viram a consolidação. Dificuldades de estrutura e acesso eram superadas, uma a uma. O CT crescia. A paixão que unia a todos se multiplicou, e rapidamente o Botafogo se tornou o clube com o maior número de federados, chegando a cerca de 60 atletas registrados.
As conquistas então vieram, coroando o esforço e o talento de todos. O clube foi campeão estadual nas regras 1, 3 e 12 Toques, e alcançou um honroso 3º lugar no Campeonato Brasileiro de Clubes de Dadinho em 2018, dentre outros títulos. Nomes como Robson Marfa, um multicampeão notável tanto no 1 Toque quanto no SectorBall, José Waner, Halisson Carneiro, Márcio Leal, José Carlos Bayeux, e mais recentemente Elinto Pires e Sérgio Ferreira, gravaram seus nomes na história do clube com conquistas memoráveis. O próprio Marcos Moysés, com três títulos estaduais na regra 1 Toque, testemunhou e fez parte ativa dentro das mesas dessa incrível década de glórias, suor e superações.
Em 2020, um grande percalço mundial – a pandemia. Um hiato forçado que silenciou os toques e as celebrações até 2022. O mundo parou, e junto com ele, a rotina do futebol de mesa. No retorno da pandemia, o Botafogo já vivia sob nova direção. Em 2022, as negociações para o futebol virar SAF começaram a desenhar uma nuvem ameaçadora sobre o futuro do futebol de mesa no Engenhão.
Em 2023, com a separação oficial entre SAF, clube social e futebol, veio o golpe: o estádio seria exclusivo do futebol. Não havia mais espaço para o futebol de mesa. A sede de General Severiano também não comportava o espaço que a modalidade precisava. Metade dos atletas federados, sem saber onde continuar, migraram para outros clubes. A estrela parecia perder o brilho. A modalidade, que tanto lutou para existir e prosperar, quase sucumbiu no clube. Quase.
Então, meio que por acaso – ou por providência –, Marcos Moysés encontrou a luz no fim do túnel: um salão am anúncio de aluguel na Rua Riachuelo. Fechado há 15 anos, completamente negligenciado, detonado, rechaçado por todos. Mas ele viu ali não um problema, mas uma oportunidade. Ele sabia ser possível reformar aquele local, tal qual fizera no Engenhão.
Negociou ali uma reforma em troca de descontos no aluguel. A obra, como sempre, gastou mais que o previsto, mas em três meses o novo Centro de Treinamento estava de pé. Não 100% perfeito, mas funcional, vibrante e, acima de tudo, um lar. O Botafogo Futebol de Mesa voltava, com um espaço que, diferentemente daquele do estádio, agora, estaria sob controle exclusivo do futebol de mesa, o que permitiria acesso livre e possibilitaria realizar mais eventos, respirando a essência da modalidade. Nascia a maior Arena de Futebol de Botão entre os clubes e ligas do Rio de Janeiro e do Brasil.
Dez anos…
Orgulho.
Tradição.
Glória.
De um canto improvisado no Rio Comprido a um CT renovado na Rua Riachuelo, passando pelo período glorioso no Nilton Santos e pela quase extinção. A jornada do futebol de mesa do Botafogo é um testamento à paixão de seus praticantes, à dedicação de seus líderes e à capacidade de resistir e renascer. Esses dez anos foram uma crônica viva de um esporte que, para eles, é muito mais que um jogo: é uma parte pulsante de suas vidas. Que venham mais dez anos, e que a bola, a pastilha, o disco ou o dadinho continuem a rolar, e tenham no Botafogo a sua mais bela casa.
Texto: Fabricio Cesarino









